BIENAL OU SIMPÓSIO? – MUITO MAIS QUE PERIODICIDADE…

ARTE SIMPOSÍACA: UM ESTADO MULTIDISCIPLINAR DA GRÉCIA ANTIGA AOS TEMPOS HODIERNOS

Independentemente da semasiologia que a contemporaneidade procure associar ao termo ‘simpósio’, fazendo-o corresponder, ‘lato sensu’, a um encontro de investigadores ou criadores ligados a uma determinada área disciplinar – desde a literatura à medicina, passando pelo desporto e o direito – cujo intuito primacial é disseminar procedimentos e tecnologias num momento preciso face a uma temática emergente ou relevante no contexto dessa mesma especificidade, a verdade é que, nas suas origens, que recuam à  Antiguidade Clássica, os simpósios estavam ligados às artes, designadamente à poesia lírica, música e dança – mau grado estas servissem de sustentáculo lúdico a interlocuções temáticas de cunho dialogal. Tais manifestações tinham lugar durante a realização de certos encontros de copiosa degustação vínica e gastronómica, promovidos por determinados intelectuais, sob a égide de Dionísio – a quem faziam inclusivamente uma libação laudatória – nos quais os comensais entabulavam debates de ideias mais ou menos ociosos, mas de fundo meditativo e sistémico. A conhecida e estudada obra ‘O Banquete’, de Platão, reporta-se precisamente a um simpósio: um encontro pantagruélico em casa de Agaton, poeta ateniense, que conglomerou em seu redor as mais gradas figuras de Atenas. O mais distinto dos convivas fora Sócrates, mas marcam igualmente presença, entre outros – corporizando afinal os  diálogos que enformam a obra – Aristodemo, seu discípulo, Aristófanes (dramaturgo), Fedro (rectórico), Erixímaco (médico), Alcibíades (‘artes políticas’). O tema desse memorável simpósio fora o deus Eros; no fundo – o amor.

Todavia esse simpósio distanciava-se da tipificação grega dos mesmos; fora mais filosófico do que artístico e servia fins que extrapolavam o âmbito simposíaco. Não nos esqueçamos que na Grécia antiga, em postulação de que o próprio Platão foi fautor em ‘A República’, a ‘arte’ (‘mousike’) era constituída apenas pela ‘música e poesia – com ou sem dança – o teatro, ‘performance’. Surpreende-nos hoje em dia que a escultura – já para não falara na pintura e na cerâmica – ficasse excluída dessa categorização. Não obstante, para  o  pensador grego, a ‘arte’ era o  fundamento da educação e fez oportunamente atentar para as influências da componente estética na formação dos jovens: se estimulava por um lado a aprendizagem,  imprimia um ritmo mais criativo, livre e lúdico à educação por outro, potenciado além do mais a liberdade individual. Os simpósios eram pois, nos seus primórdios, como muito bem explica Silvia P. Caballero, momentos de favorecimento das artes nos moldes enunciados atrás, com especial destaque para a poesia: «El simposio, entendido como reunión aristocrática, favoreció la difusión de la elegía y la creación del yambo. Ambos géneros evidencian los cambios de los siglos VII y VI a.C.». A mesma autora deteta a passagem dos ‘simpósios’ da esfera oligárquica para a pública, mercê de fenómenos decorrentes da competitividade emanada de famílias preponderantes. Os simpósios – continua a mesma investigadora – tinha a seguinte compleição: «En primer lugar el que, nada más comenzar el banquete, tras la distribución de guirnaldas y las libaciones, entonan todos los asistentes: un peán dirigido a los dioses. Después, el que cantaba el simposiasta que sostenía la rama de mirto o laurel, o la lira que habían hecho girar de mano en mano siguiendo el orden en que estaban colocados. Estas intervenciones individuales serían frecuentemente de tipo hímnico, gnómico o satírico. Por último el de los expertos, que podía ser también improvisado —pero no siempre— como prueba de elegancia compositiva, que llevaba acompañamiento musical, y que por su calidad poética se ha conservado».

Com o advento da Civilização Romana, os simpósios degeneraram da sua compleição original – mau grado as controvérsias geradas em redor da sua nova essência – e, abandonando a preponderância sub-reptícia da arte num todo harmónico, passaram a realizar-se com base numa mera celebração, mormente em louvor de Saturno, as chamadas Saturnálias. Em suma, confinavam-se tão-só a festividades (com música, actores e declamadores) que tinham lugar por toda a Roma mas cuja centralidade emanava do fórum, mais propriamente do templo dedicado àquela divindade a quem era feito o respectivo tributo sacrificial. Tinham início a 17 de Dezembro (ou nas vésperas desse dia) e duravam até 23 do mesmo mês.  Compreendiam um banquete público (‘lectisternium’)  e tinha início com o hino colectivo ‘Io, Saturnalia’.

Com o devir dos tempos, os simpósios diluíram-se num sem-número de corporizações e acepções. O fenómeno renascentista e a cultura humanista,   propiciaram momentos que se podem filiar na recuperação dessa noção mais clássica: mentes esclarecidas e bem sucedidas economicamente, fizeram-se rodear, nas suas cortes e palácios, de beleza e sabedoria, propiciando a proliferação da criação em escultura, pintura e obras literárias, apostando na concentração de colecções artísticas e preciosidades históricas  – constituindo tais residências autênticos centros de sociabilidade cultural e que vêm a ser, percursoras dos museus. Mais tarde, o Romantismo oitocentista conseguiria, ainda que timidamente, recuperar uma vez mais essa convivialidade de intelectuais e artistas, com as célebres tertúlias parisienses e os grandes salões expositivos de arte.

Contudo, só em finais do séc. XIX conseguiríamos obter um modelo capaz de evoluir para fórmulas mais aproximadas dos simpósios originais: falamos da Bienal de Veneza que aconteceu pela primeira vez em 1895, e que veio a definir daí em diante, a eclosão de eventos de arte diversificados, mas de índole mais ou menos congénere. E se a edição inaugural, dedicada às artes decorativas, se confinava a um território mais ou menos restrito, a partir do ano de 1907 passou a assumir um carácter vincadamente internacional e, após  primeiro conflito mundial,  procurou acompanhar a revolução que se estava a operar no seio da arte moderna. Passando por várias vicissitudes, entre elas a de ter passado da administração do município de Veneza para a do governo central fascista e a suspensão da mesma durante a Segunda Guerra Mundial, continua a ser a referência, disseminando-se por várias áreas disciplinares: arquitetura, artes visuais, cinema, dança, música e teatro.

A designação de ‘bienal’ remete logicamente para a periodicidade do acontecimento e não para a sua natureza simposíaca, que é inegável.  E assim, hoje em dia, o termo ‘simpósio’ passou a designar eventos anuais (em arte) – e abusivamente, aliás, como principiámos por dizer – também  uma qualquer conferência académica ou sectorial de duração reduzida: não um momento concertado por um agregado de indivíduos para exercitar dialética das temáticas multidisciplinares artísticas.

Desenvolveu-se, assim, um pouco por todo o mundo, uma polissemia categorial e funcional do conceito, que permitiu, desafortunadamente, que os mesmos se autonomizassem face a uma categorização normativa estabelecida na Antiguidade Clássica Grega.

No que respeita aos simpósios de arte que têm lugar nas várias latitudes do planeta, o termo e conceito tem sido depurado mas remetendo para uma essência fundamentalmente produtiva – e não reflexiva  – num contexto comunitário urbano, ou pelo menos de concomitância na intervenção criativa em espaço partilhado. Há-os temáticos, mono e pluridisciplinares e procuram reflectir uma ideia precisa, planificada, de desenvolvimento de determinado projecto locativo público, para que o observador se possa ir dando conta   de todo o processo que envolve as etapas criativas.

‘Mutatis mutandis’ – e salvaguardando as devidas proporções –  no Simpósio Internacional de Arte Contemporânea Cidade da Guarda, procurámos modestamente adoptar  um conceito  mais aproximado ao modelo originário, no que toca às expressões que não só as visuais.

Procurámos clivar intencionalmente a diferença entre espectador e observador; destrinçar o comum ‘visitante’ de espaços expositivos ou museais daquele que acompanha o ‘processo criativo’ – já este é, como o dissemos inúmeras vezes, parte integrante e indissociável do resultado: as mais das vezes a  sua (aparente) invisibilidade só existe aos olhos de quem só presenciou a obra final.

Este envolvimento do espectador – directa ou indirectamente (isto é, quer mediante workshops, mesas-redondas ou palestras etc., quer como viva testemunha da evolução da ideia visual em materialização implica um alargamento muito maior de interesses que, por acontecer no espaço urbano, cria espontaneamente uma comunidade ‘ad hoc’, duradoura ou não,  mas que confere uma outra escala ao momento: ou seja, torna o processo criativo partilhável com a materialidade social,  que muitas vezes se lhe distancia, quando não lhe nega qualquer valimento, exatamente porque a tão propalada – e lamentada pelos criadores – ‘incompreensão’,  advém quase sempre do facto de o ‘observador’ não fazer parte do fluxo processual ‘ab initio’,

Algumas das premissas da já temporalmente longínqua ‘Gestaltteorie’ ou gestaltismo – embora a recuperação/reinterpretação das mesmas face à realidade e tempos actuais seja um procedimento recorrente no seio dos actuais  estudos sobre arte, com resultados preciosos (de que são exemplo Arno Enngelmann, Rudolf Arnheim) –  o gestaltismo, dizíamos, que privilegia a percepção da ‘forma figura e configuração’ segundo a qual o todo integrado não provém da soma das partes, explica em parte, sobretudos pelos elementos gradientes, como é fundamental para o observador a construção ideológica a partir da experimentação perceptiva.

Procurámos, assim proporcionar uma apreensão visual global, um encontro franco e livre com a realidade artística, num gradiente que se estenderá até ao acolhimento crítico ulterior das formas sendo neste particular a componente formativa um instrumento fundamental de envolvimento emotivo e cognitivo.

Realizámos este ano o I Congresso de Investigação em Arte, em colaboração com a ATA | Instituto Universitario de Investigación en Arte y Tecnología de la Animación da Universidade de Salamanca, cujo director é o catedrático e co-director artístico do SIAC, José Fuentes Esteve. Sentíamos a necessidade – para além das mesas-redondas e das conversas com artistas, de dotar o Simpósio de mais momentos de reflexão crítica, de diálogo – como aconteceu nos primórdios clássicos….

Assim, a principal preocupação de quem programou não foi, nem será nunca, a da obtenção de qualquer identificação imediata com a obra de arte, com o poema, com a performance, com a exposição, com a oficina, com o curso, com o congresso, com cada um dos momentos e seus actores, com os protagonistas das várias disciplinas criativas em apreço, mas antes apresentar um elenco simposíaco enquanto proposta de diálogo que, longe de se desejar concordante, abra caminho para novas propostas e se delineiem sendas derivantes e enriquecedoras de um rumo – que é o próprio simpósio afinal.

Muitas vezes nos questionam da razão de termos nas três edições do SIAC tantos momentos dedicados à literatura, designadamente à poesia. Respondemos: porque nos aprouve consignar a Mousike que Platão postulou na ‘República’, juntando-lhes as Artes Visuais e as novíssimas expressões de arte, sem recusar nenhuma delas.

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