Com a transferência da sede de Bispado de Idanha-a-Velha para a Guarda, em 1203, por influência de D. Sancho I, foi necessário promover a construção de uma Sé Catedral. Nada se sabendo do edifício primitivo, sabe-se, porém, que na segunda metade do século XIV se encarou a construção de uma sé nova fora do perímetro amuralhado. A construção da atual Sé Catedral iniciou-se a partir de 1390 mas, dada a envergadura do projeto, as obras arrastaram-se e o edifício só foi terminado em pleno contexto manuelino.

A catedral, orientada no sentido Este-Oeste, de acordo com a norma tradicional, tem a sua fachada principal naturalmente virada a Ocidente. É ladeada por dois torreões muito reforçados, de planta octogonal. O portal, de recorte tipicamente manuelino – como todo o conjunto desta fachada – é encimado por um nicho que abriga desde o século XVI uma belíssima imagem de Nossa Senhora da Assunção, padroeira da cidade da Guarda.

            Todavia, a entrada mais utilizada é a que fica sobre a Praça Luís de Camões, na fachada Norte. Nesta fachada, a mais emblemática da cidade, o que lhe dá um valor icónico singular, abre-se um típico portal gótico encimado por um janelão de estilo já manuelino, constituindo este conjunto um dos mais belos complexos arquitetónicos dos séculos XV-inícios do século XVI construídos a Norte do Mosteiro da Batalha.

            O interior da Sé, de grande clareza compositiva, é de conceção gótica, com uma nave central e duas naves laterais, em articulação com um transepto muito desenvolvido e com uma cabeceira de desenho muito puro. A cabeceira é a parte mais antiga do complexo arquitetónico e, como tal, é a mais próxima do que seria o projeto inicial da sé da Guarda, vinculado aos preceitos do gótico mais puro e elegante, tal como formulado, entre nós, no gigantesco estaleiro do Mosteiro da Batalha. A cabeceira da Sé da Guarda, tal como a da igreja deste célebre mosteiro, é muito simples, constituída por uma capela-mor muito desenvolvida ladeada por duas capelas laterais, todas elas de planta poligonal. O arrastar das obras fez com que o projeto fosse sendo ciclicamente atualizado, pelo que também no interior a Sé da Guarda apresenta importantes marcas e influências manuelinas, facilmente identificáveis, de que são exemplo as típicas colunas laterais com o típico efeito “em corda”, semelhante ao entrelaçado das cordas dos navios dos Descobrimentos.

            Merece relevo o retábulo monumental do altar da cabeceira, esculpido em pedra de Ançã e atribuído à escola de João de Ruão. Este retábulo representa episódios da Vida de Cristo, que se iniciam com o Nascimento e terminam com a Paixão. Apesar das remoções de importantíssimos elementos arquitetónicos, escultóricos e decorativos durante as sucessivas campanhas de restauro que o edifício sofreu, desde as pioneiras campanhas do Arquiteto Rosendo Carvalheira, ainda nos fins do século XIX, na cabeceira da Sé ainda podemos ainda apreciar os cadeirais dos clérigos, com esculturas em madeira de cabeças de anjos, com diferentes e singulares expressões faciais.

            Nas naves laterais duas capelas particulares merecem referência, a Capela dos Ferros e a Capela dos Pinas. Esta última, de portal Renascentista, contém no seu interior a estátua jacente de João de Pina, sobrinho do famoso cronista régio e Guarda-Mor da Torre do Tombo Rui de Pina.

            A escala monumental da Sé da Guarda contrasta com o acanhado das ruas e das praças da cidade velha, bem como com a modéstia e a singeleza vernácula da generalidade dos edifícios circundantes. Proporciona um dos ex-libris da cidade e um dos ícones mais intensos de toda a arquitetura portuguesa de origem medieval.