SANTA RITA PINTOR (1889-1918)

5 Obras Inéditas do Introdutor do Futurismo em Portugal

GUILHERME DE SANTA-RITA ou simplesmente SANTA RITA-PINTOR (como ficou mais conhecido) nasceu em Lisboa em 1889 e é considerado o introdutor do Futurismo em Portugal. Formado pela Academia Real de Belas Artes com 18 valores, parte para Paris como bolseiro em Abril de 1910. Na capital francesa convive com os grandes nomes do movimento modernista, priva com Picasso, Braque, Mondigliani, Picabia; torna-se amigo de Apollinaire, pertence ao círculo íntimo do seu compatriota Mário de Sá-Carneiro (que se inspirará nele para a personagem Gervásio Vila-Nova de ‘A confissão de Lúcio’, 1914). Paris está ao rubro e Santa-Rita encontra-se no epicentro do fenómeno transformista. Conhece Marinetti, participa nas suas acaloradas conferências na Galerie Berheim-Jeune e adere aos princípios que aquele proplama. Em 1902 exporia supostamente pela primeira vez e tê-lo-á feito no Salon de Indépendents com a obra ‘ Ruído num quarto sem móveis’ – da qual nada se sabe.

Dando-se, entretanto, a implantação da República, e decorrente de desentendimentos que desenvolve com o embaixador de Portugal, João Chagas, vê a sua bolsa ser-lhe suprimida e regressa a Portugal em 1914.

Já em Lisboa, lança mãos da tarefa de publicar o «Manifesto Futurista», ao que parece, mandatado pelo próprio Filippo Marinetti, afã que circunstâncias adversas malograram.

Em 1915 Santa-Rita integra com Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros, Luiz Montalvôr, entre outros, a revista Orpheu, da qual se publicaram dois números, correspondentes aos primeiros dois trimestres daquele ano, sendo o terceiro número cancelado devido a dificuldades de financiamento. A revista balizaria um dos momentos mais determinantes da cultura portuguesa do séc. XX: o seu vanguardismo inspirou movimentos literários e artísticos subsequentes de renovação da cultura portuguesa, marcando o que ficou conhecido pelo nome de ‘Geração de Orpheu’.

A 14 de Abril de 1917 Santa-Rita seria um dos organizadores da ‘1ª Conferência Futurista’ realizada no Teatro República (Teatro São Luiz), em Lisboa, na qual são apresentados os princípios futuristas e é lido o ‘Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX’ por Almada Negreiros que entretanto se tornada um dos maiores seguidores e admiradores de Santa-Rita.

Entre Novembro e Dezembro desse ano Santa-Rita prepara o lançamento da Revista ‘Portugal Futurista’, verdadeiro libelo da corrente e onde participam vários ícones da geração d’Orpheu, e onde figuram excertos traduzidos de Marinetti, Boccioni, Carrà, Russolo e Severini. Nela colaboram Bettencourt Rebello, Almada Negreiros, Fernando Pessoa, Amadeo de Souza-Cardoso, Raul Leal (contando ainda com três poemas de Mário de Sá-Carneiro, falecido no ano anterior). Destaque-se ainda a participação de reconhecidos autores estrangeiros como Guillaume Apollinaire e Blaise Cendrars, a inclusão do “Manifeste des Peintres Futuristes” e do manifesto futurista Le Music-Hall de Marinetti (Milão, 29 de setembro de 1913).

Todavia, a revista seria apreendida à porta da tipografia, por subversão e obscenidade de alguns textos, tendo escapado pouquíssimos exemplares. Santa-Rita nunca expôs em Portugal. Faleceria 29 de Abril de 1918 e deixou expressa à família a vontade se que toda a sua obras fosse queimada. Subsistindo todavia vários trabalhos académicos e alguns auto-retratos (Fund. Calouste Gulbenkian), das suas pinturas modernistas apenas resistiram duas, uma vez que todas as outras conheceram o destino desejado pelo seu autor. São elas: Cabeça (1912?) e Orfeu dos Infernos (1907).