O Concelho da Guarda, inscrito bem no coração da região beirã, entre o Planalto Guarda-Sabugal e a Serra da Estrela, detém um património natural e um património cultural, material e imaterial, de um valor extraordinário. Formado lenta e continuamente ao longo dos tempos, este património, na multiplicidade das suas formas e das suas manifestações, tem o maior significado para as gentes da região e ocupa um lugar cimeiro no imaginário e na própria identidade nacional. Com efeito, o Concelho e a cidade da Guarda detêm algumas das mais intensas, das mais impressivas e das mais bem conservadas paisagens históricas portuguesas.

O espaço natural, o povoamento milenar e uma rica História multi-secular modelaram os modos de vida, as tradições, os costumes e o carácter forte e viril das gentes das Beiras. Aqui, num contexto geográfico rigoroso, que impôs uma austeridade e até uma certa rudeza de modos, formou-se um ecossistema natural e humano único, de uma riqueza e com uma identidade cultural incomparável, que tem o seu epicentro na paisagem urbana da cidade mais alta de Portugal. Com efeito, temos que reconhecer que o grande monumento do concelho é a própria cidade da Guarda, que detém um dos mais belos, mais ricos e mais bem conservados patrimónios construídos de todo o país.

Continua envolta em neblina, em dúvidas e incertezas a vida das comunidades humanas que pela primeira vez calcorrearam e viveram nos montes e vales da região que nós hoje visitamos e habitamos. Pouco sabemos sobre a vida dos primeiros homens que, há muitos milhares de anos, povoaram o território do atual Concelho da Guarda. Desse longo passado pré-histórico conhecemos apenas fragmentos isolados e dispersos, insuficientes para a compreensão dos modos de vida das comunidades que atravessaram o território da Guarda. Assim, para lá dos achados isolados do machado do Outeiro de S. Miguel (Arrifana) e do de Cairrão (Vila Garcia), merece uma referência particular a Anta de Pera do Moço, cuja construção remonta ao período de transição do IV para o III milénio a.C.

Do final do Calcolítico ou já dos inícios da Idade do Bronze, ou seja, dos fins do II milénio a.C., isto é, remonta a cerca de 1800 a.C., chegou até nós a estátua-menir de A-de-Moura (Santana de Azinha), uma escultura antropomórfica monumental que, muito possivelmente, representava um chefe guerreiro, equipado com um cinturão liso e adornado com colares e ostentando no braço um bracelete.

Do período denominado Proto-História, que abrange o final da Idade do Bronze e a Idade do Ferro, temos mais informações sobre as comunidades que habitavam o território da Guarda. Neste período verificaram-se profundas alterações nos modos de vida das comunidades humanas, em parte resultantes de contatos com povos da Europa Além-Perineus. Considera-se que a exploração mineira bem como a subsequente comercialização de metais, nomeadamente o estanho, terão levado ao estabelecimento de contatos com outras comunidades quer vizinhas quer longínquas. A este período remontam povoados tão importantes como o Castro do Caldeirão, o Castro da Pedra Aguda ou o Cabeço das Fráguas. O conjunto de materiais arqueológicos do Museu da Guarda deste período é significativo, desde a espada, em bronze de Vilar Maior (encontrada no Castelo de Vilar Maior, no Concelho do Sabugal, na década de 50 do século XX, tendo sido adquirida pelo Municipio da Guarda em 1957 para integrar a coleção do Museu), uma ponta de lança, em bronze, encontrada na aldeia de Vila Soeiro (no Concelho da Guarda), ou o conjunto de materiais arqueológicos recolhidos em escavações no Cabeço das Fráguas.

A Idade do Ferro, datada a partir do século VII a.C., é caraterizada pelo fabrico e uso de utensílios e armas em ferro, antecedendo entre nós o período da romanização. É possível que o uso do ferro se encontre relacionado com a própria evolução histórica das comunidades humanas, facilitada pelos estímulos, influências e contatos com o exterior. Deste período possuímos diversos povoados, como o Picoto (S. Vicente), ocupado entre os séculos VI-V a.C. Este e outros povoados da região integravam o grupo que os romanos denominaram de Lusitani.

 

Simultaneamente ao processo de conquista do território da Península Ibérica pelos romanos ocorreu a organização administrativa dos territórios conquistados. Assim, em 27 a.C. o imperador Augusto dividiu a Península em três Províncias: Ulterior Bética, Ulterior Lusitana e Citerior Terraconense. Cada Província estava dividida em conventos, encontrando-se a região da Guarda inserido no conventus Emeritenses, com capital em Augusta Emerita (Mérida). O território de cada conventus estava ainda dividido em civitates, territórios que possuíam uma capital regional, de que dependiam administrativamente.

Rapidamente se criou uma rede densa de novos núcleos de povoamento, adaptados às novas condições e exigências do Império.

Em torno dos principais corredores de circulação natural e passando por diversos núcleos de povoamento, a construção sistemática de vias facilitou, numa primeira fase a conquista do território, permitindo a rápida deslocação das legiões romanas de forma a facilitar o processo de conquista e de apaziguamento de sublevações. Numa segunda fase, após a pacificação do território, a rede de estradas – cada vez mais densa – possibilitou a circulação de pessoas e mercadorias, facilitando o processo de romanização do território. Ao longo das estradas, sobretudo das mais importantes, eram colocados miliários, distribuídos em distâncias regulares. A palavra deriva de miliarium, que tinha origem na expressão latina milia passuum (mil passos, cerca de 1940 m). Geralmente de perfil cilíndrico, os miliários continham informações muito relevantes para os viandantes: distâncias a percorrer até chegar a determinada localidade ou a determinado posto de descanso; limites entre determinados territórios administrativos autónomos (província; civitas, municipia, etc…).

 

A Antiguidade Tardia, período que medeia entre os séculos V e VIII d.C., continua envolto em misticismo. Os dados que possuímos atualmente sobre a região da Guarda permitem-nos afirmar que se verificaram profundas alterações no povoamento e na sociedade. Sobretudo os sítios de maior importância regional denunciam alterações significativas quer no modo de vida das comunidades, quer na sua participação nas redes de comércio, com a presença pouco significativa de materiais importados. Esta situação poderá denunciar não só alterações na rede de povoamento, mas também a decadência muito acentuada ou o próprio fim do intenso e tão longo contacto histórico desta região com essas velhas vias comerciais, então à beira do seu esgotamento. Não obstante, o simples facto de ainda os apresentarem comprova que os sítios de povoamento continuavam a ser ocupados e que ainda nos séculos IV e V se encontravam inserido nas rotas comerciais que cruzavam a Península Ibérica, responsáveis pelo transporte de terra sigillata de fabrico norte-africano. Com efeito, não nos podemos esquecer que ainda no século IV a capital de Província, Augusta Emerita, detinha um papel preponderante na redistribuição de bens e produtos, ganhando mesmo um novo fôlego neste domínio. Este facto denuncia um renascimento económico que terá conduzido à renovação da circulação de produtos nas velhas rotas, de que são testemunho os exemplares de terra sigillata no Mileu, embora certamente muito longe da intensidade das trocas comerciais verificadas no período anterior.

 

Será já na Idade Média, período que medeia entre os séculos VIII e XI, durante o qual o território era pontuado por castelos, fortificações, penellas e castra, que ocorreu o fenómeno do encastelamento. Surge então uma rede de castelos raianos que tinham como objectivo proteger a fronteira do então jovem Reino de Portugal. É então que surge a cidade de A guarda, dotada de uma localização estratégica. A nova cidade, mais interior, fazia parte da rede de castelos que protegiam e defendiam a entrada na Estrada da Beira, uma das principais vias de comunicação do Reino.

Como se sabe, o momento mais importante da história da cidade da Guarda é o da sua fundação pelo rei D. Sancho I, que lhe atribui o seu primeiro foral a 27 de novembro de 1199.

Implantada sobre o último contraforte Norte da Serra da Estrela, a cidade tem um domínio visual esmagador sobre a vasta área circundante. A sua História prende-se com a da Reconquista Cristã, que exigiu a fortificação da fronteira com o vizinho Reino de Leão, que então era definida pelo Rio Côa.

Em 1199, a atribuição da Carta de Foral marca uma primeira etapa na história da jovem cidade, imediatamente promovida a cabeça de uma das maiores e mais importantes dioceses do Reino, em 1202, substituindo a antiquíssima Diocese da Egitania (Idanha-a-Velha), cujo núcleo urbano há muito entrara em decadência.

A criação da cidade e a sua promoção a sede da nova diocese resultaram da vontade política do Rei D. Sancho I, o Povoador, em proteger e favorecer esta região e os seus moradores.

A povoação primitiva detinha um primeiro núcleo fortificado, muito pequeno. Dele resta a chamada Torre Velha, a Torre de Menagem de um primitivo castelo românico quase todo posteriormente absorvido quer na malha urbana quer na futura rede de muralhas construídas na época de D. Dinis, em finais do século XIII. Neste período o núcleo fortificado do castelo e da alcáçova deslocalizam-se, passando para o ponto mais alto e mais desabrido da cidade. Deste complexo militar e residencial resta apenas a Torre de Menagem, implantada a 1056 metros de altitude.

Da Alcáçova partiam as muralhas que rodeavam toda cidade e que alcançavam, no seu extremo Norte, a Torre Velha. Ao longo do seu percurso, em pontos estratégicos, abriam-se portas monumentais, devidamente fortificadas, restando atualmente a Porta dos Ferreiros, defendida por uma altíssima torre de vigia, a Porta da Erva e a Porta de El-Rei.

A linha das muralhas abrigava uma típica povoação medieval, com as suas praças, largos, ruas e vielas. Algures bem no miolo do casco urbano, uma rua ou um pequeno bairro reservado e circunscrito abrigava a comunidade judaica, minoritária embora importante, com as suas habitações, a sua sinagoga e outras estruturas de apoio de teor coletivo. A presença desta comunidade encontra-se atestada na cidade da Guarda, desde o século XIII, período a partir do qual a comunidade e a sua sinagoga aforavam habitações pertença do monarca.

A Guarda medieval é uma cidade muito dinâmica, em constante crescimento e renovação. A Este e Sueste desenvolvem-se importantes rossios abertos que irão ser futuramente urbanizados e polarizadores de uma contínua expansão urbana. Esta começa com a implantação do Convento dos Franciscanos, implantados na cidade ainda no século XIII.

O início da construção da actual Sé remonta à última década do século XIV e inaugura nova revolução urbana na cidade. A sua muito vasta área de implantação impõe um óbvio rasgamento urbano. A construção, muito lenta, do edifício gótico faz com que este seja terminado em pleno contexto manuelino, embora prossigam algumas intervenções pontuais até 1540.

Entre a cidade eclesiástica e a cidade laboriosa, a Praça Luís de Camões – a antiga Praça Velha – proporciona de há muito o espaço público mais central e mais concorrido. A Praça Velha concentrou secularmente a presença do poder religioso e do poder civil, isto é do poder concelhio, administrativo e judicial.

Assim, se a Sé polariza o poder episcopal, a antiga Casa da Câmara, no lado nascente da Praça, construída na segunda metade do século XVI e em uso até há última década do século XX, era a casa do concelho.

A conclusão das obras da Sé e a construção da casa da câmara (a par de outras casas particulares de localização e importância mais ou menos periférica) são as marcas mais importantes do século XVI.

Os séculos XVII e XVIII assinalam-se por importantes campanhas de obras de natureza residencial e institucional, a começar pelo monumental complexo do Seminário e do Paço Episcopal anexo. Paralelamente surgem solares e casas mais ou menos monumentais, dependentes quer de modelos vernáculos quer de modelos eruditos, maneiristas e barrocos.

Ainda da Época Barroca, merecem referência a Igreja de S. Vicente e a Igreja da Misericórdia, reconstruídas ao longo do século XVIII, aquela localizada bem no centro da cidade medieval, esta, no importante arrabalde leste.

O século XIX e o Liberalismo vão trazer nova revolução urbana. É então que a cerca das muralhas é demolida em muito grande parte, sendo a malha urbana medieval rasgada para permitir a abertura de novos arruamentos, como a Rua D. Luís (atual Rua 31 de Janeiro) e a Rua do Comércio. À semelhança de Lisboa e de muitas outras cidades e vilas da Província, também a Guarda ganhará um Passeio Público, espaço belamente ajardinado no velho rossio que outrora proporcionara o Campo da Feira.

A criação do Sanatório, apenas possível com a criação da Linha da Beira Alta (inaugurada em 1882) e a Linha da Beira Baixa, ambas confluentes na Guarda Gare, vão proporcionar a criação de uma nova cidade ferroviária.

A privilegiada localização da Guarda conferiu-lhe uma superioridade climática que continua a ser reconhecida ainda hoje. As origens do Sanatório Sousa Martins remontam aos finais do século XIX, período da História em que Portugal começou uma luta estruturada contra a tuberculose. A 18 de maio de 1907, a Rainha D. Amélia e o Rei D. Carlos I inauguraram os Pavilhões do Sanatório.